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Trinta dias depois


18 de outubro de 2026.

Trinta dias se passaram. Escrevi uma carta, me despedi de quem eu era e fiquei em silêncio. Nesse tempo, a vida aconteceu sem precisar virar post. Corri, conheci lugares, vi arte, gargalhei de doer a barriga, chorei algumas vezes, respirei e reaprendi a me aventurar em coisas boas. Andei de metrô em São Paulo, conheci o bairro da Liberdade que ainda não conhecia, visitei o MASP, fui ao teatro prestigiar minha querida amiga Angélica Urbano e me permiti viver momentos que, de alguma forma, fizeram os meus dias mais bonitos.

Entre uma experiência e outra, também pensei muito. Sobre a vida, sobre as escolhas, sobre o futuro e sobre tudo aquilo que, às vezes, a gente precisa deixar para trás para conseguir seguir em frente. Confesso que nem todos os dias foram de certezas. Mesmo enquanto vivia coisas boas, havia perguntas que insistiam em me acompanhar. Será que estou fazendo a escolha certa? O que será que o futuro me reserva? E se o caminho que escolhi não for exatamente aquele que imaginei?

Hoje, trinta dias depois, algumas respostas ainda não chegaram. Mas percebi que já não preciso delas para reconhecer aquilo que faz sentido para mim. Não sei exatamente para onde estou indo, mas sei que não posso permanecer onde já não me reconheço. E, dessa vez, não quero chegar a lugar algum deixando a mim mesma para trás. Existe aquele ditado: para quem não sabe o que quer, qualquer caminho serve. Mas eu sei o que eu quero. O que ainda não sei é qual caminho me levará até lá. E talvez exista uma grande diferença entre essas duas coisas. Nem sempre conhecer o que desejamos significa saber como alcançar. Às vezes, a gente tem clareza sobre aquilo que procura, mas ainda não consegue enxergar os próximos passos. E tudo bem. Nem todos os caminhos se revelam de uma só vez.

Na minha última carta, escrevi que me recolheria até que a voz de Deus conversasse com a minha alma e acalmasse as perguntas que eu trazia no peito. As perguntas continuam aqui. Mas, durante esses dias, comecei a compreender que talvez ouvir a voz de Deus também seja aprender a silenciar o barulho de fora para conseguir escutar o coração. É encontrar um pouco de paz no meio das incertezas, olhar para dentro e ter coragem de reconhecer aquilo que já não faz sentido, mesmo quando ainda não sabemos o que virá depois.

Talvez algumas respostas não cheguem como palavras, mas como uma tranquilidade que, aos poucos, nos ajuda a compreender nossas próprias escolhas. Talvez Deus também nos ensine por meio do tempo, das experiências e da coragem que encontramos em nós mesmas quando precisamos recomeçar. Não sei se todas as minhas perguntas serão respondidas tão cedo. Mas já quero transformar a espera em um motivo para deixar a vida passar. Quero viver enquanto descubro. Quero continuar conhecendo lugares, experimentando novos sabores, colecionando histórias e encontrando beleza nas coisas mais simples. Quero continuar correndo pelas ruas, ouvindo minhas músicas e escrevendo sobre aquilo que toca a minha alma. Quero me permitir viver sem precisar entender tudo antes. Porque aprendi que escolher a mim mesma não significa ter todas as certezas. Significa compreender que também sou responsável pela vida que desejo construir e que não posso esperar que o mundo faça por mim as escolhas que cabem ao meu coração.

Ninguém conhece tão profundamente os meus sentimentos quanto eu. Ninguém pode viver as minhas experiências no meu lugar, nem sentir as consequências das minhas escolhas por mim. E, por mais que eu deseje  ser compreendida, acolhida e escolhida, sei que preciso começar por mim. Eu me escolho antes de esperar que alguém me escolha. Me escolho quando respeito os meus limites, quando reconheço o meu valor e quando tenho coragem de seguir por caminhos que ainda não conheço.

Me escolho não porque deixei de ter medo, mas porque não quero mais permitir que ele decida tudo por mim. Ahhh, hoje, volto a escrever porque senti saudade das palavras. Gosto de registrar os pensamentos que me visitam, de transformar sentimentos em pedaços de texto e de deixar aqui algumas lembranças de quem sou em cada fase da vida. Não volto para prestar contas dos dias em que estive ausente. Volto porque este espaço continua sendo meu, e escrever ainda é uma das maneiras que encontro de conversar comigo mesma.

Se a carta anterior foi uma despedida, esta não precisa ser uma apresentação de quem me tornei. Afinal, ainda estou no caminho. Há coisas que mudaram em mim, outras que ainda estão encontrando um lugar e tantas que nem sequer consigo explicar. Não tenho pressa de dar nome a tudo. Quero apenas respeitar o meu tempo, confiar em Deus e continuar aprendendo a caminhar sem exigir de mim mesma, certezas que ainda não tenho. Talvez, daqui alguns anos, eu volte a ler estas palavras e compreenda melhor o que hoje ainda parece incerto. Talvez eu descubra que algumas despedidas foram necessárias para que outras histórias pudessem começar. Por enquanto, não preciso saber.

Basta reconhecer que estou em movimento. Que a vida continua me apresentando novos caminhos e que, mesmo sem conhecer o destino, posso escolher com cuidado os passos que dou. Trinta dias depois, continuo aqui. Com perguntas no peito, sonhos na cabeça, fé no coração e a vontade de viver tudo aquilo que ainda me espera. Não sei exatamente para onde estou indo, mas sei muito bem o que quero. E, desta vez, quero chegar lá sem precisar deixar a mim mesma pelo caminho. Que Deus continue conversando com a minha alma, mesmo nos dias em que eu não souber reconhecer a sua voz. Que eu tenha sabedoria para compreender o que precisa ficar, coragem para me despedir do que já cumpriu seu papel e serenidade para aceitar aquilo que ainda não posso entender. E que eu nunca me esqueça de que não preciso ter todas as respostas para continuar confiando na vida.

Afinal, algumas das mudanças mais bonitas acontecem justamente quando ainda não sabemos como a história vai terminar. Por enquanto, sigo. Com calma, com fé e com carinho pela mulher que estou me tornando. Até a próxima página.

Para não deixar esta publicação tão extensa, optei por compartilhar apenas uma fotografia. Mas fiz questão de registrar, no dia 17 de outubro, algumas das imagens que marcaram esses trinta dias. A publicação de hoje é, de certa forma, uma extensão das fotografias de ontem. Com carinho, Caaaaju. (fotos aqui).

Publicação em: 2026

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