Escrevo esta carta para deixar algumas observações sobre a sua trajetória até aqui. Você ainda vai passar por várias viradas de chave. Em todas as vezes que isso acontecer, você vai mudar de forma tão significativa, na sua própria grandiosidade, que a sua versão do passado não fará a menor ideia de quem nos tornamos. Às vezes, parece até que essas duas versões não se conectam. Afinal, quando decide fechar uma porta, você costuma avisar, escrever, cantar a bola e explicar... até que, em uma sexta-feira comum para o resto do mundo, você simplesmente escreve uma carta a próprio punho agradecendo pelas oportunidades ofertadas mas reconhecendo que aquele lugar já não te cabe mais. E você parte, feito estrela cadente. Você muda com facilidade de cidade e de endereço, se preciso for. Você tenta a todo custo se encaixar em um mundo de aventuras, bondade, coragem e amor. Só que você vai quebrar a cara tão feio que vai se questionar: será que vale a pena ser boa? Você quase vai pisar na bola com os seus valores, mas terá tempo de racionalizar e voltará para si mesma, embora a raiva te consuma por ver as coisas serem sempre tão difíceis para você.
Você vai convencer todo mundo de que a vida vale a pena, mas vai se questionar com Deus por não ter podido crescer ao lado dos seus pais, e por ter sido tão difícil encontrar pessoas de boa índole ao longo do caminho. Você vai dizer que está tudo bem ser passada para trás, que você dará um jeito, porque você sempre dá um jeito. Só que vai chegar uma hora em que, o que para o resto do mundo parecerá uma decisão radical, para você será apenas o resultado de gotas diárias que fizeram o seu balde transbordar.
Queria muito, Anne do futuro, que você realmente tivesse tido a oportunidade de viver uma vida leve e ter a família que nunca teve. Uma vez você escreveu que queria abraçar o mundo. Lembrar disso ainda dói na alma, porque aquela garota sente que não conseguiu. Que falhou. A verdade é que não há possibilidade de abraçar o mundo com braços de gente normal. Principalmente quando você escolheu ser professora. Que profissão mais desumana. Só que veja bem; deixa eu te contar um segredo do passado: você não falhou. Você só aprendeu quais mundos realmente valiam a pena ser abraçados.
Anne, você ainda está vivendo na linha tênue de sentir que as pessoas más parecem ser muito mais recompensadas, mas o seu coração simplesmente não aceita o que é ruim, não aceita o mal. Então aquietasse. Ninguém, absolutamente ninguém nunca mais precisa saber das suas dores, do seu sufoco. Reinvente-se garota. Suma de tudo o que puder e esconda-se da maldade humana. Aproveite seus últimos instantes nesse lugar. Romantize a sua passagem. Viaje.
Esta é a minha carta de despedida do meu antigo eu. Ao som de "Enquanto escrevo 2", em uma sexta-feira comum, decido guardar o meu espaço e desacelerar. Eu gosto dessa playlist. E gosto de escrever.
Escolho a gentileza comigo mesma e me dou o presente do repouso. Mereço um tempo de paz, de respeito e de carinho com a minha própria jornada. Recolho-me até que a voz de Deus converse com a minha alma e acalme as perguntas que ainda trago no peito. Aos que cruzaram meu caminho com afeto, meu amor. Aos que vêm depois, o meu silêncio. Nos veremos num lugar melhor. E se qualquer pessoa lhe perguntar sobre mim, responda sem pensar duas vezes. –– Ela esta em viagem, com a sua playlist, dançando entre as estrelas. Com carinho, Caju.
Postagem em: 2026










