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O eco do que não se diz

Ontem, você não foi apenas uma lembrança passageira. Não foi aquele pensamento solto que o vento traz e leva sem esforço. Eu pensei em você com a força de quem desenha cenários, idealizando cada contorno de uma vida que insiste em existir apenas no avesso do agora. Imaginei o peso do seu abraço e a paz que ele passa, enquanto, por dentro, eu lutava contra a vontade quase física de quebrar o silêncio.

Tive a urgência de abrir uma nova conversa, de ouvir sua voz e deixar a razão de lado. Mas as promessas que fiz a mim mesma pesam mais do que qualquer saudade. Existem barreiras que não foram feitas para serem saltadas, e eu aprendi que certas conexões são tão sublimes quanto arriscadas. Estar com você é flutuar em um mar calmo, sabendo que a tempestade está logo ali, sob a superfície à espera de nossos deslizes.

É um jogo de mestre, onde a lição mais difícil é entender que você é o meu destino mais bonito e, ao mesmo tempo, o meu perigo mais doce, Reconheço o seu domínio sobre os meus sentidos, mas escolho o silêncio. Porque te ter por perto é o maior dos privilégios, mas te buscar é o maior dos riscos.

Sigo aqui, guardando o que sinto em um lugar onde o mundo não alcança e onde você se faz eterno. Porque, no fundo, sabemos que a promessa de um último encontro raramente se cumpre. O "nunca" é uma palavra grande demais para nós; por enquanto, prefiro deixar o convite mudo, suspenso no silêncio que você sabe exatamente como quebrar.


Amo-te em silêncio.

Um dia estava tudo ali, no outro... nada.

Tenho pensado muito em previsibilidade. Sobre o quanto isso é essencial para mim, ainda que, por muito tempo, eu não soubesse nomear. Existe uma característica muito forte na minha personalidade: quando alguém não é claro comigo, eu me afasto. Não por frieza, não por orgulho - mas por proteção. A falta de clareza sempre me machucou mais do que qualquer verdade dura. Seja no trabalho, relacionamentos amorosos, amizades.. em tudo. 

Desde cedo, eu nunca tive as coisas muito claras. As pessoas simplesmente iam. Sem aviso, sem conversa, sem fechamento. Sempre me colocando em uma posição para trás, sem explicação. Um dia estava tudo ali, no outro... nada. Como se eu não merecesse uma despedida, um motivo, uma palavra. 

E talvez por isso hoje, eu funcione assim: se alguém chega em mim e diz (eu não te amo mais, não gosto mais de você, não quero continuar). Eu aceito. Respeito e não insisto, não persigo, não incomodo. Por mais que doa, aquela decisão é do outro, e eu sei respeitar os limites. Bem como se eu não me sentir amada o suficiente a ponto de ficar, vou-me embora. E quando a pessoa não diz nada e passa a me tratar com indiferença, a minha reação é a mesma: eu vou embora. Porque é muito duro ter que exigir o mínimo. O mínimo de olhar, o mínimo de toque, o mínimo de conversa. Então, não gostar ou não dizer nada, para mim, acaba sendo a mesma coisa.

Um sentimento que me incomoda profundamente é pena. Esse é o pior sentimento que alguém poderia sentir por outro ser humano, no sentido: estou com ela por pena, tenho dó. Ahhhh não. Isso não. É horrível e no mínimo RIDÍCULO. Como se as pessoas fossem frágeis demais para ouvir a verdade - ok! estou falando sobre mim. Pode sim existir pessoas que não suportam a verdade, entre tanto, toda via - eu sempre deixo claro desde o inicio. Sinceridade por mais que doa, sempre será minha preferência. E cá entre nós, deveria ser essencial para todos. Sem joguinhos, sem rodeios; é isso e pronto.

Quando eu olho para trás, eu entendo de onde vem isso. Me pai foi embora assim. Minha mãe me deixou assim. Sem avisos, com mentiras, pontas soltas. Eles simplesmente desapareceram. Sem qualquer consideração afetiva.

E talvez seja por isso que, hoje, a imprevisibilidade me canse tanto, Porque eu já vivi demais sem chão.

Passagem

Eu sempre senti que não iria embora muito tarde. E, de fato, não irei. Para mim, ir embora tarde é quando ninguém mais te suporta. Quando você incomoda tanto que as pessoas mal veem a hora de você sair da festa e ir embora para casa. Não falo de festas. Nem de casa.

Falo da vida. Essa que passa depressa.

E é sobre ela que penso: eu não irei embora muito tarde. Isso martela na minha cabeça desde muito pititica. E, para compensar a pressa em viver, eu escolhi ser intensa. Intensa no amor. Na fé. Na espiritualidade. Na atenção em exagero. Nos abraços apertados. No cheiro que fica com vontade de ficar. E assim eu vou vivendo. Porque eu sou passagem. E, logo logo, vou-me embora.