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O segredo das minhas estações

Dizem que o vidro calejado se torna opaco, mas eu escolhi continuar transparente. Todo mundo que se aproximou levou um pedaço de mim; na família, no amor, nos encontros da vida. O mundo esperava que eu me tornasse espinho, mas insisto em florescer. Sou especialista em ensinar caminhos às crianças e em tecer abrigos para os outros, mas confesso: sou péssima em ler a maldade. No fundo, prefiro acreditar que aqueles que não foram leais não agiram por crueldade, mas apenas habitavam um plano espiritual diferente... onde não conseguem ver que a vida acontece no sopro do aqui e do agora. 


Minha trajetória nunca foi uma linha reta; foi um mosaico de silêncios e renascimentos. Aos dez, descobri que o mundo dos homens esconde sombras que uma criança não deveria experenciar. Aos quatorze, vi a partida cruzar o oceano. Aos dezoito, assisti ao meu nome ser envolto em ruínas. Aos dezenove, vi o espelho se esquecer de quem eu era. E aos vinte, vi um castelo inteiro ser roubado dos meus olhos. Mas foi também aos vinte que segurei o mistério da despedida nos meus braços e fechei os olhos do meu pai pela última vez, entregando-o ao mesmo vento que, um ano depois, tentaria roubar a minha própria saúde no segredo de um diagnóstico que guardei só para mim.

O tempo nunca diminuiu o passo. Aos vinte e nove, a vida me entregou a fragilidade mais dolorosa e sagrada: segurei meu filho, um anjo que não chegou a respirar o mundo, mas que me ensinou, em segundos, o peso exato da eternidade. Logo depois, aos trinta, os alicerces do que eu chamava de lar afundaram. E, diante das ruínas, eu apenas continuei o meu caminhar.

Tenho o hábito bonito de acordar e tatear o amanhecer como se ele guardasse o meu último suspiro. Por isso, quando me perguntam e eu respondo que está tudo bem, não há mentira. Habitar os labirintos da minha mente pode ser um exercício complexo, mas a minha alma repousa em paz. O amanhã sempre foi o mais bonito dos mistérios. Não se trata de um diagnóstico ou da tempestade lá fora; trata-se do tempo que nos resta. O que faremos com ele? A partida é a nossa única certeza estática; o viver é que é a grande e maravilhosa incerteza. Acho curioso quem mede a existência pelo luxo, ou quem repete "seja feita a vossa vontade", mas recua no primeiro trovão.

O mundo está cheio de ruídos, mas o que o vento te sussurra quando te toca a pele? É simples ser grato quando o roteiro não falha. Mas eu, calejada de humanidade, aprendi que não nos faltam garantias, nos sobra impermanência. Às vezes, o desapegar é o jeito mais elegante que o universo encontra para nos fazer transbordar. Somos apenas passagem. E eu sigo como uma passageira de malas prontas e coração leve, porque, acima de tudo... que se cumpra a vontade maior.

Por fim, quando você me pede perdão, antecipando as dores que julga poder me causar, percebo o eco vazio dessas palavras. Quem já atravessou tempestades não teme o vento. Sei que esse pedido não nasce da alma, mas sim do orgulho. Ainda assim, se você ler atentamente as entrelinhas de tudo o que fomos, notará que em momento algum eu cogitei te expor ao mundo. A minha dignidade nunca dependeu da sua ausência. Eu escolhi o silêncio protetor simplesmente porque, um dia, eu verdadeiramente te amei. E o amor, mesmo quando vira memória, merece o respeito do sagrado.

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