O tempo tem esse hábito quase cruel de acender as luzes quando tudo o que queríamos era continuar no escuro do cinema, assistindo ao filme perfeito que criamos. De repente, o projetor falha. E no silêncio da noite, os flashs de memórias voltam não como nostalgia, mas como avisos que eu insisti em ignorar.
Sim, essa é a mini caju!
É um luto estranho esse que carrego no peito. Como se chora por alguém que nunca existiu? Não chorei por ele. Descobri, afinal, que nunca o conheci. Chorei pela versão impecável que rascunhei nas paredes da minha própria mente. Chorei pelo porto seguro que inventei e que só me propus a habitar porque as portas pareciam abertas e livres.
Há quem minta para se proteger, mas há quem minta em cima da própria mentira para proteger o próprio orgulho. O que dói não é a perda; é o luxo do ego alheio ter sido pago com a minha paz. Mas há uma beleza dolorosa em estar sem rotina, com as férias estendidas e os sentimentos à flor da pele. Atravesso as fases desse luto inventado sabendo que, embora as feridas sejam reais, o controle da narrativa sempre foi meu.
Nos meus livros, sou eu quem comando os passos da personagem principal. Eu decido para onde ela vai, as dores que ela deixa na calçada e os novos horizontes que ela escolhe olhar. Se a realidade me colocou em um cenário que me destruiu, na minha própria história eu já escrevi o ponto final. E, pela primeira vez, o final feliz não depende de quem assina a mentira, mas de quem sobreviveu a ela.
Ela, eu não pude proteger.
Olho para trás e vejo aquela menina na foto. Ela, eu não pude proteger do mundo, do tempo ou das feridas que estavam por vir. Mas se o passado me deixou vulnerável, o presente me fez fortaleza. Então, não venham me dizer que me tornei inacessível. Eu apenas aprendi, da forma mais dura, que agora eu posso, e devo, me proteger. Com carinho, Caju.




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